domingo, 31 de outubro de 2010

Vicente Rao

       

  


Um Reinado de Alegria

Primeiro Rei Momo oficial de Porto Alegre, reinou durante 22 anos, precisamente entre 1950 a 1972, jogador na década de 20, acabou sendo inscrito na história do Sport Club Internacional por ser um insuperável animador de torcida, criou a primeira escolinha de futebol, assim como a primeira torcida organizada “Camisa 12” no grande time do Internacional conhecido por rolo compressor nos anos 40/50, expressão também criada por Vicente Rao que fazia desenhos dos jogadores e do time todo e logo após os amassava, a partir deste momento que ele teve a ideia do rolo amassando todos os seus adversários, também é creditado a ele o surgimento de grandes bandeiras os estádios de futebol do Rio Grande do Sul, assim como foguetes e serpentinas. Nasceu no dia 04 de abril data de aniversário de seu clube do coração, por isso dizia que não tinha nascido e sim inaugurado.
Vicente Rao, morreu em Porto Alegre, em 1973, aos 62 aos de idade, foi considerado o maior dos foliões de todos os tempos, foi bancário como profissão e como tal, chegou a líder sindical por mais de trinta anos, chegando a ser acusado de comunista e também a incitação à violência a greve e a agitação, isso nos 70 em plena ditadura militar, foi julgado e absolvido o que evidentemente gerou uma grande festa organizada pelos amigos, um carnaval fora de época.
Em sua vida também ficou muito conhecido como papai noel e coelhinho da páscoa, estava envolvido em praticamente todas as atividades da cidade, mas sem dúvida nenhuma brilhou como Rei Momo esbanjando alegria.
Antes de 1960, não existia Rei Momo, Rainha, Princesas no carnaval, cada bloco tinha a sua própria ‘Realeza”. Em Porto Alegre na década de 30, o rei momo era um boneco que representava a figura do fanfarrão, que não trabalhava e vivia para festas. O boneco virou símbolo dos desfiles até virar gente. Anos depois surgiram os Reis Momos, Lelé e Macalé que animavam os carnavais nos bairros da cidade.
Mas o maior Rei Momo de todos os tempos na capital foi Vicente Rao, o personagem da folia, o maior mito do carnaval de Porto Alegre.
Pesava cerca de 100 quilos e era considerado o primeiro e único, era comandante do bloco “Tira o dedo do pudim” nas festas do Arrial da Baronesa e nos desfiles do carnaval na descida da Borges.

Ó meu amor
Não faz assim
Eu sou o bloco
Tira o Dedo do Pudim!

Perto do carnaval publicava na Folha da Tarde, comunicados no estilo militar sempre assinados como Vi100-Rao.
Vicente Rao foi um soberano cheio de alegria e um magnetismo pessoal que era difícil de encontrar, símbolo de uma época de Porto Alegre boêmia e tranqüila.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Gilda Marinho



Recepção no hotel Plaza São Rafael,  Gilda Marinho em pé


Nascida em Pelotas, no ano de 1900, esta porto-alegrense de coração, fez história na em nossa cidade, sobretudo na área cultural, foi jornalista, uma das primeiras mulheres a trabalhar na imprensa gaúcha, tradutora, professora de Artes da UFRGS, mas, sem dúvida alguma seu sucesso maior foi como colunista social.

Sempre transbordando em alegria, quebrou regras, como quando consegui ser admitida na confraria gastronômica Le Bom Gourmet, que até então era exclusiva para homens, Gilda foi a exceção, foi uma mulher de vanguarda, considerada muito adiantada para a época em que viveu, conforme seu amigo pessoal Roberto Gigante, “ Gilda foi a primeira em tudo, a pintar o cabelo, a dirigir carros e até a fumar”. Agitadora se dizia comunista, se vestia de modo extravagante, grandes óculos, sapatos coloridos, era uma festa só, transitava com naturalidade nos vários setores da sociedade, morava no edifício Clube do Comércio, nas décadas de 50 e 60 que era considerado sinônimo de “status”, e só “Gente Fina” morava ali, protagonista de inúmeras histórias engraçadas, elegemos uma retirada do livro Os anos Dourados na Praça da Alfandega de José Rafel Rosito Coiro, o autor relata a paixão de Gilda por jogos de cartas, naquela época, os figurões políticos e os milionários jogavam no Clube do Comércio, Gilda Marinha passava horas jogando, e devido a sua fama tinha uma prerrogativa, ela descia de seu apartamento no sétimo andar, até o primeiro e dali através de uma porta, chegava as salas de jogo, isto é, não passava na portaria, nem precisava sair a rua para jogar, fez isso por 15 anos, num determinado momento foi criado uma portaria no clube na qual ficava terminantemente proibida que fossem servidas refeições nas mesas de jogos, imaginem o que significava para os jogadores esta Lei, já que quando estavam jogando não se levantavam para nada, Mas Gilda com sua tradicional irreverência numa longa noite de jogos, solicitou um filé mal passado e aspargos na manteiga, o garçom, conforme determinação relutou em atender mas acabou vencido, temeroso por se tratar de Gilda Marinho, sem antes ter que ouvir diversos impropérios sobre o Presidente, quando o presidente do clube soube, ficou uma “fera” convocou uma reunião extra urgente e por unanimidade a resolução foi suspender Gilda Marinho por trinta dias, de imediato a ordem foi para a secretária do clube, porém não encontraram a ficha de sócia, conclusão, Gilda jamais tinha sido sócia do Clube, nova reunião de diretoria, então um dos conselheiros fez a defesa de Gilda Marinho, onde chamou a atenção para o fato dela ser uma pessoa muito particular, e que Gilda fazia parte do Clube de seu folclore, e que o Clube devia muito mais a ela, do que o ela Clube e que tinha sido ela, como profissional de imprensa que mais tinha promovido o Clube, após a Diretoria, novamente por unanimidade resolveu conceder um título de sócia, ela ao receber o referido título disse “que era sócia do clube a mais de dez anos, pois fiz usucapião do título de sócia”. Hoje no Clube existe a Sala de Jogos Gilda Marinho.

Literatura sobre Gilda Marinho pode ser encontrado em “A vaca nua” de Eduardo Krause e “Memórias Alinhavadas” de Rui Spohr.

Gilda morreu em Porto Alegre, em 1984, sem antes porém de passar batom e espalhar perfume no quarto em que estava internada.

domingo, 17 de outubro de 2010

Oddone Greco


Circuito do Parque Farroupilha, 1953, Oddone Greco tirou último lugar na prova.



Entre os vários personagens da cidade o com maior senso de humor com certeza foi Greco, grande gozador, brincalhão e espirituoso que agitava a Rua da Praia nos bons tempos, aqueles em que ainda existia disposição para se pregar peças e trotes, hoje não se brinca mais nem no primeiro de abril, em fim, mas isto é outro assunto, Greco tinha um vasto circulo de amigos, provavelmente devido a sua simpatia.

Suas peças se passaram por volta dos anos 40, tantas foram e algumas entraram para o folclore de Porto Alegre, especialmente quando “roubou” um bonde da Companhia Carris, para dar uma voltinha, para desespero do motorneiro e cobrador que tomavam café tranqüilamente no fim da linha, ou nas madrugadas de sábados na garagem da Carris na João Pessoa, ficava horas esperando a oportunidade, uma distração de algum motorneiro e pronto, saia ele e o bonde pela Sarmento Leite, para abandonar após e sair em disparada pelas ruas para o delírio de seus amigos.

Foram tantas que não dá para relatar neste espaço, mas no Melhor do Anedotário da Rua da Praia, de Renato Maciel de Sá Jr, outro grande personagem de Porto Alegre, está recheado das peças de Oddone Greco, vale a pena ler.

Era de família abastada, de origem italiana, tinham grandes propriedades na cidade assim como alguns cinemas, morava num grande palacete na Avenida Independência, quase nunca trabalhou, vivendo de mesada ou colocando no prego ou vendendo um e outro bem da família ou mesmo presente, uma da vezes que ficou noivo ganhou um belo relógio de ouro de sua amada, no outro dia, empenhou na Caixa Econômica Federal, para espanto geral, vendeu o motor de um possante Fiat de seu pai, S. Januário, o carro ficara parado na Garagem devido a escassez de gasolina oriunda da Guerra, passado algum tempo o pai chamou um mecânico para examinar a preciosidade, estava em boas condições, somente com a falta do motor. Entre suas vendas podemos destacar uma arma de seu pai, que lhe entregou em uma discussão, uma cama de casal da residência em Torres, quando veraneava sozinho. Já nos meses de junho e julho seus familiares iam passar o inverno no Rio de Janeiro, aí ficaram famosas as festas na mansão na Independência e era nessa época, que com os elevados gastos, que entrava em cena seu lado comerciante. Numa destas ocasiões escreveu para seus pais pedindo mais dinheiro, como houve resistência, ameaçou vender o piano da residência, obviamente foi atendido. Tocava bem piano e praticamente não bebia, seu vicio era o jogo.

Passava inúmeros trotes no Tucha, famoso cabeleireiro ou barbeiro no Royal Salon, localizado no Largo dos Medeiros, quando ouvia nas Rádios ou lia nos jornais a perda de algum animal, ligava para o dono informando a localização, naturalmente foi o S. Tucha que o encontrou, antes de desligar o telefone, recomendava, insista pois ele gostou tanto o animalzinho que o levou para casa, mas ele é um homem bom e vai devolver, Tucha entrava em desespero.

Por fim, também ficou famosa, aquele que, quando um amigo estudante de Medicina, rejeitou um convite para festa em virtude de ter conseguido finalmente um cadáver para estudo de anatomia, e a disponibilidade na Santa Casa era no Sábado à noite, já na madrugada, tal amigo absorto em seus estudos, quando de um canto, com pouca luz se levanta um “cadáver” totalmente despido e vagarosamente começou e se vestir, o tal estudante evidentemente que perdeu a oportunidade dos estudos, pois fugiu apavorado, sem contudo mais tarde procurar desesperadamente por Oddone Greco para se vingar da oportunidade perdida.

Foram tantas, porém morreu cedo, de infarto em 1959, ainda solteiro, quando as rádios chamavam seus familiares que estavam nas Praias, ninguém acreditou, principalmente seus amigos, que pensaram tratar-se de mais um trote de Greco.

Porém sua simpatia e brincadeiras, sua vocação para o cômico, e a aversão a tristeza, fizeram ser um dos personagens mais famosos e folclóricos da Porto Alegre antiga, este foi Oddone Nicolino Greco.

sábado, 16 de outubro de 2010

Professor Brilhante - A nostalgia de um traço



Francisco Brilhante, o Professor Brilhante, nasceu no dia 02 de abril de 1901, o “velhinho simpático” habitava as escadarias da Igreja do Rosário, na Rua Vigário José Inácio, no centro de Porto Alegre, quem circulava pelo centro da cidade, nas décadas de 60 até 80, se lembrará, desta figura característica de nossa cidade, cavanhaque branco, óculos e boina. O inesquecível artista plástico permanecia nas escadarias da igreja, pintado retratos de todos que posavam para ele.


Falecido em 14 de junho de 1987, deixou, devido ao seu intenso trabalho e ao longo dos cinqüenta anos de produção, mais de 40 mil quadros pintados, espalhados pelo Brasil, retratou figuras ilustres como Mário Quintana, Borges de Medeiros, Pinheiro Machado, Getúlio Vargas, Washington Luis, Ildo Meneghetti, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, entre outros. Embora o seu foco, o seu forte, fossem as pessoas que pousavam para ele, em sua grande maioria habitantes de Porto Alegre, deixou algumas paisagens, sobretudo de nossa cidade.

Professor Brilhante foi um dos artistas mais populares da cidade, dizia ele: “ a pintura não me deu dinheiro, vivo com pouco, mas em compensação, trabalhar da forma que escolhi me ensinou a viver e conhecer os homens”.

Formou-se em Artes Plásticas na Universidade do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no ano de 1920, aperfeiçoado suas experiências, mais tarde, no Rio de Janeiro, capital na qual permaneceu cerca de quatro anos. Regressou a Porto Alegre, sua terra natal, onde recomeçou seus trabalhos nas Praças da cidade, fixando-se nas escadarias da Igreja por mais de 25 anos.

Muitas de suas pinturas, não necessitavam de modelo, eram realizadas com base em fotos 3x4, deixadas pelos fregueses. Utilizou, além das escadarias, as dependências da Igreja nas quais mantinha um ateliê para ministrar aulas, considerado com um estilo “parisiense” foi o precursor dos pintores de rua. Devido ao seu talento, o passeio localizado em frente ao McDonald’s, na Rua da Praia, e que abriga artistas de rua, recebeu o nome de nosso artista, Professor Brilhante. Ambos tiveram a honra de serem homenageados: o professor e o passeio. Também existe a Fundação Professor Brilhante, mesmo com esforços individuais, a cidade ainda não homenageou da forma como deveria ser este pintor inovador, o primeiro, o precursor, que sempre emprestava um certo charme a cidade uma ponta de romantismo, até este momento nenhum museu de Porto Alegre, mantém qualquer quadro do Professor Brilhante.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Nelson Coelho de Castro



NELSON COLEHO DE CASTRO


Outro freqüentar assíduo da esquina, Nelson Coelho de Castro, músico gaúcho que podemos chamar de porto-alegrense de fé, jornalista por formação, foi um dos produtores do Programa Portovisão na antiga Televisão Difusora, programa inovador que alcançava o primeiro lugar no IBOPE no horário do meio dia na televisão do Rio Grande do Sul, neste mesmo programa, trabalharam, Clóvis Duarte, Fogaça, etc, foi uma espécie de lançamento de várias pessoas na TV local, um escola, mesmo já com sucesso como produtor, abandonou a carreira de jornalista para se dedicar inteiramente a música, enfrentando todas as dificuldades da época para viver somente da carreira de músico.
Em 1974 no festival do colégio Parobé ganha o Prêmio comunicação, vários prêmios no Musipuc, importante festival, que a rádio Continental AM, sempre ligada ao movimento cultural de Porto Alegre, transmitia ao vivo.
Faz sua estréia nas famosas Roda de Som de Carlinhos Hartlieb em 1975, mais tarde termina a faculdade de jornalismo e em 1977 faz seu primeiro espetáculo E o crocodilo chorou com sua banda Olho da Rua.
Participa do primeiro disco de música popular de Porto Alegre no de 1978 o antológico Paralelo 30, faz sucesso com a música Rasa Calamidade, que faz um retrato da Vila Cruzeiro do Sul, sua miséria e sua luta.
Sempre inovando, lança o primeiro disco independente do Rio Grande do Sul, o dinheiro para este projeto é arrecadado com a venda de bônus, que era a venda do disco antecipada, a estes compradores Nelson os chamou de cooprodutores e tiveram seus nomes na contracapa do disco, a relação termina como não poderia deixar de ser, pelo menos em se tratando de Nelson Coelho de Castro, com cidade de Porto Alegre, somente este disco mereceria um estudo isolado pela importância do fato, sobre este disco ele declarou “fiz o primeiro disco independente gaúcho em 1981, era isso ou ir embora, e eu quis fazer aqui mesmo. Fico orgulhoso pelo que aconteceu – não por Ter feito o primeiro, mas por ter demonstrado aos demais artistas que este caminho era possível. Um incentivo para eles fizessem os seus. E foi o muitos passaram a fazer” (do livro Gauleses irredutíveis).
As músicas Armadilha e Zé – aquele tempo do Julinho fizeram bastante sucesso, esta última, segundo Mauro Borba, tornou-se um espécie de hino da rapaziada que estudou no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, “Aquele tampo do Julinho, eu jamais vou esquecer, eu pensei que era um filme, eu jamais irei me ver...”
Já armadilha, criada juntamente com Dedé Ribeiro, fez parte da trilha do filme Verdes Anos, rodado totalmente em Porto Alegre e grande sucesso local, “ Falta pouco tempo eu sei, mas quando a gente é pequeno, o tempo custa pra passar, também a gente pode crescer,...
Sobre este disco Nelson escreveu no encarte:
“ daí tudo ficou como antes – e pior e um dia, di manhã, eu conto... ficamos assim olhando tudo e espelhos e não tem nada – vamos fazer um lance pois era uma idéia e uma vontade boa, para isso Santana, Plauto, Zézinho e mais os que já estavam perto – Antonio e Suzana, Oscar, Paulinho, Júnior e Paulino. A gente foi aqui para casa, ensaiamos algumas coisas, conversamos e tomamos cervejas no Gabriel. O Gelson e o André pintaram pelas mãos do Zézinho. O Martins encontro na Getulio, outra pessoa, que pinta como o galo que canta, é o Valdir, era quase inverno, como agora quase não é mais, doutra vez o Plauto chegou com uma folha e escreve os arranjos para flauta. Aí ele faz mais e depois mais...até a gente não conseguir segurar o que ele fazia “tá bom neguinho!” e também a emoção de escutá-lo assim tão próximo. Assim fomos para o estúdio, gravar músicas, talvez, outras, outras, talvez. Aqui no Cristal vê-se o rio e o mundo, duas coisas diferentes – até mesmo quando se chora di paixão – e não estou di nada quando chove e sonhamos e estou. Quando era noite fria o Oscar nos deixou conhaque, o Mitchell queria bolinos e o Marquinhos disse que não estava cansado. Quando gravamos Zé, tempo do Julinho, foi outra emoção, cantamos dí mão dadas, sempre pensei no disco como uma coisa mágica, o girar do prato daquele mistério negro, o selo azul, verdi, cor di vinho e o encanto dos cantores e cantoras ali dentro do disco, para sempre e para sempre ali dentro, que coisa mais maluca, eu não tinha 4 anos, tinha cinco e eu não me lembro, eu só recordo, pois tem aquela coisa di que lembrança é uma coisa e recordação é outra e eu tenho mesmo é recordação, mas tri pertinho di agora, quando é hoje, o desejo deste prazer é o mesmo, tão igual e absoluto.
Quando foi outro dia, depois do depois di muito tempo, história do Brasil, e do que não sei mais, mixamos. O Santana resmungou que era aquilo mesmo e eu acreditei em tudo, daí, pinta outro lance o dos bônus, eu quase duvidava, mas a Lica sempre assoprava um louco “vai dá sim” ao meu sexto desespero, que virava nada.
Agora, no solitário agora, não sei se falo que foi tudo bonito e tínhamos poucas horas di estúdio... assim está e nada verá di graça nesta manhã, pois tudo isto durou um ano e vocês vão acreditar, né?
Ao disco, um nome, Antonio falou que Juntos fechava todas, então juntos, nesse Juntos um beijo a todos que levaram fé di uma maneira ou de outras
Acho que deu, e assim estou e estamos, Juntos.
Nelson Porto Alegre, setembro de 1981.”

Já corria o ano de 1983 em que também venceu o primeiro Festival Latino Americano da Canção, também recebe o prêmio Tibicuera com o musical infantil Cidade do Lugar Nunhum e estoura nas rádios o sucesso Vim Vadiá.

É, negadinha, é a verdadeira história de Porto Alegre.
Mas antes do primeiro LP independente do Rio Grande do Sul, Nelson tinha seu lançado seu primeiro disco, em 1979, o compacto Faz a Cabeça, com a música de mesmo nome, trazendo referências ao retorno de Brizola do exílio,
“ Faz, faz a cabeça, faz com cachaça, faz a razão Mas toma cuidado
Com a folia da situação Faz, faz a cabeça, com qualquer coisa- o coração
Mas toma cuidado, Com a folia da situação
Se foi por causa de nós que este bandido fugiu Nós sai dando atrás dele
Faz ele voltar pro Brasil História que ele vai vim, Vai tremer cem os boneco daqui
Nós não somo pelego e nem cheremo a jasmim(vê só o fedor se diz que faz...)
Não, não custa mentir Dizer que vai tudo feliz Nós tem vergonha na cara
Nós beija na cicatriz Não, não vai ter lero Se o cara vim pro comi e dormi
Se vim prometer ração, nós vai dar ferrão Vai fazer cumprir história que ele vai vir, vai tremer com os bonecos daqui”
na época da Anistia, muitos brasileiros voltaram aos pagos.
Nelson, conforme ele diz vestiu a camiseta de Porto Alegre e em suas letras canta sistematicamente os bairros da cidade, exemplo disso está nas músicas Cristal e Sertório, entre outras. Foi um dos maiores batalhadores da Cooperativa dos músicos de Porto Alegre.
Nunca admitiu se mudar de Porto Alegre, mesmo sofrendo o ônus de não ter ido para São ou Rio e esta atitude ter significado falta de sucesso ou não ter dado certo. Vários prêmios em sua carreira, Açorianos de melhor música infantil em 83, melhor trilha para teatro em 1985, melhor compositor, melhor disco de MPB e melhor disco do ano de 1997, CD Verniz da Madrugada, melhor espetáculo do ano e disco do ano com “Juntos ao Vivo” juntamente com Totonho Villeroy, Bebeto Alves e Gelson Oliveira, também foi vencedor do primeiro Musicanto e na décima edição esta mesma música, No Sangue da Terra Nada Guarani, foi escolhida por voto popular e melhor canção de todas as edições.
Recebeu a medalha de Porto Alegre na 42ª edição da semana de Porto Alegre, foi também membro titular do Conselho Estadual de Cultura.


DISCOGRAFIA: (até o lançamento desse livro)

• Paralelo 30 (ISAEC, 1978)
• Faz A Cabeça (single) (ISAEC, 1979)
• Juntos (Independente, 1981)
• Nelson Coelho de Castro (RGE, 1983)
• Força D'Água (ARIOLA, 1985)
• Veniz da Madrugada (Independente, 1996)
• Juntos Ao Vivo, com Bebeto Alves, Gelson Oliveira e Totonho Villeroy (RBS Discos, 1998)
• Coletânea (Barulinho, 2000)
• Paralelo 30 – Ontem e Hoje (Unisinos, 2001)
• Da Pessoa (Independente, 2001)
• Cartografia Musical Brasileira (vários artistas)(Itaú Cultural, 2001)
• Juntos 2 – Povoado das Águas (Atração Fonográfica, 2002).


Nelson Coelho de Castro tem um público cativo, e isto é um resumo de um dos maiores autores e músico desta cidade, este brilhante artista pode e deve ser considerado tranqüilamente o Artista da Cidade.


PARALELO 30


Marco histórico da música de Porto Alegre, assim como do Rio Grande do Sul, paralelo 30 foi o primeiro disco considerado como MPG, Musica Popular Gaúcha, a música urbana, foi um marco no nosso cenário musical, foi a partir deste momento que impulsionou a carreira de vários músicos de forma profissional.
Na verdade o movimento musical já era efervescente, porém não havia nenhum registro fonográfico, “foi a primeira vez” de consagrados músicos de Porto Alegre, como Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, etc.
A idéia foi do Jornalista Juarez Fonseca, que tinha o desejo de registrar a ebulição musical da época, e levou esta idéia a Gravadora Isaec,
Geraldo Flach recém tinha assumido a direção da gravadora, e esta possuía uma mesa de gravação Audio Design com 16 canais, comparada com as melhores do centro do pais, paralelo trinta foi o primeiro disco gravado nesta mesa e saiu com o selo Pentagrama, a Isaec possuía quatro selos para diferente tipos de musicas. O LP, saiu no final de 1978 reunindo seis músicos que foram convidados, Nelson Coelho de Castro, Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Nando d’ávila, Bebeto Alves e Cláudio Vera Cruz. Sobre o convite para participar deste projeto, Nelson Coelho de Castro, nas comemorações de vinte anos declarou a ZH, “ O coração galopava no goto quando desliguei o telefone. Juarez Fonseca, o fulcro, estava me convidando para participar de um disco. Era final de 1977. Disco coletivo. Duas faixas, duas músicas para cada compositor: Bebeto, Nando e eu (os da nova geração, alcunha já decepada pelo tempo) e mais Raul, Carlinhos e Cláudio, que já estavam na carta de navegação. Meus Deus, gravar era, e ainda é, sonho infante da magia do disco...” e assim prossegue em emocionante testemunho em uma crônica escrita por ele em Zero Hora do dia 22 de maio de 1998.
O disco vinil tinha em sua capa as fotos dos artistas e na contracapa o mapa do Rio Grande do Sul com uma faixa branca sobre o paralelo trinta – Porto Alegre, as fotos ficaram a credito de Leonid Streliaev consagrado fotografo de Porto Alegre e a arte de Gerson Scherer.
Idéia do Jornalista Juarez Fonseca, que considerou adequado o registro com seis músicos cada um gravando duas músicas, Nelson Coelho de Castro com Rasa Calamidade e Águias, Bebeto Alves com Que se passa ? e De banquetes e de Jantares, Raul Ellwanger, Te procuro Lá e Fronteiras, Cláudio Vera Cruz, com Sem Rei e Ruínas de um Sonho, Carlinhos Hartlieb com Admirados por todos e Maria da Paz e por fim Nando D’ávila com Água Benta e Como Relâmpago no céu. A música que iniciava o LP era Que se passa, e a música de maior sucesso foi Maria da Paz de Carlinhos Hartlieb, também bastante tocada Rasa Calamidade de Nelson Coelho de Castro.
Juarez Fonseca, o produtor, descreve o projeto no encarte da seguinte maneira:
- “ Da série de antologias de novos contistas e poetas, surgidas no Rio Grande do Sul nos últimos tempos, me surgiu a idéia de propor à ISAEC a gravação de uma “antologia” de compositores, mostrando um trabalho feito agora. A sugestão foi feita em dezembro de 1977; em fevereiro começamos a gravar com Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Nando d’ávila, Nelson Coelho de Castro, Bebeto Nunes Alves e Cláudio Vera Cruz. Os nomes poderiam ser ampliados, poderiam ser dez ou doze, cada um com uma faixa. Mas achei que seria mais interessante escolher seis e dar a cada um a oportunidade de mostrar pelo menos dois tempos de sua criação. Então, evidentemente, a escolha tem um certo caráter subjetivo. Paralelo 30 me parece que mostra um novo início de trabalho, mesmo que alguns de seus integrantes tenham já cerca de anos de vida ligada à música. É o caso de Raul, Carlinhos, de Cláudio. Nando, Bebeto e Nelson são da Segunda metade dos anos 70 mesmo.
Paralelo 30 é um disco gaúcho, mas não é um disco gauchista. Ele mostra tendências que coexistem aqui, em Porto Alegre, e que são resultado de muitas influências, inclusive a recente influência da consciência da terra, do que se vê e faz no lugar. Desde uma nova-milonga como Que se passa? Onde Bebeto fala da fronteira de Uruguaiana, sua terra natal, até o samba-choro Te Procuro Lá, que Raul compôs com Ferreia Gular em Buenos Aires. Desde a “invenção” de Nelson Coelho de Castro falando da sujeira Urbana, até o quase-baião Como Relâmpago no Céu, de Nando. Desde a latina Maria da Paz, de Carlinhos, até as canções pop-rurais do citadino Cláudio. Ao mesmo tempo, Raul tem uma música pampeana. Fronteiras; ao mesmo tempo bebeto tem uma quase-tango, De banquetes e Jantares. E assim por diante. Mas isso é apenas um trecho, um pedaço do trabalho deles. São as primeiras coisas que eles podem mostrar ao nível de uma gravação profissional (mesmo que, como eu disse, três deles tenham mais de dez anos de trabalho). Então, se pode dizer que Paralelo 30 é um disco de estréias. Um disco ao mesmo tempo sujo e limpo, como sujas e limpas são as coisas verdadeiras. Mas não pretende representar nada, em termos de Rio Grande do Sul – aqui há muita coisa entocada, por ser descoberta, ao lado de coisas que só não foram descobertas por acidente geográfico: não somos Rio ou São Paulo. Paralelo 30 representa uma parte do trabalho de seis autores. Apenas uma antologia. Mas uma primeira antologia. Neste texto procurei não quexar-me pelos músicos, pois hoje penso que as dificuldades que todos enfrentaram são apenas pedras no caminho. E as pedras no caminho, mais cedo ou mais tarde, ficam para trás (Ah!: o nome Paralelo 30 é idéia de Geraldo Flach). ”
É de resaltar que a música Te procuro Lá, de Raul Ellwanger foi composta juntamente com o Poeta Ferreira Gular em Buenos Aires, Raul estava exilado devido a ditadura enfrentada pelo Brasil, e no momento do disco estava retornando ao pais, Raul mora hoje em Santa Catarina onde administra uma pousada na Praia do Rosa as Cabanas Estação Baleia.
Bebeto Alves, continua na luta fazendo música e tendo relativo sucesso, até o final de 2002 apresentou o Roda Som na TVE, um belo projeto, só não assina mais Bebeto Nunes Alves, o Nunes ficou para trás, mora no Rio de Janeiro.
Nelson Coelho de Castro a cantor da cidade de Porto Alegre e Cláudio Vera Cruz continuam na música, Carlinhos Hartlieb e Nando d’ávila morreram.
Sempre citando Juarez Fonseca, afinal foi ele o pai da criança, o precursor: - em 1973 não existia quase nada em Porto Alegre, as coisas começaram a surgir no ano seguinte com as Rodas de Som criadas por Carlinhos Hartieb, tinha os Almôndegas, Hermes Aquino e mais três ou quatro bandas de rock. O passo seguinte foi a antológica Rádio Continental, através do apresentador Julio Fürst que em 1975 criou Mr. Lee In Concert, sem dúvida foi Júlio que começou a rodar a música produzida aqui em Porto Alegre, o sucesso foi tanto que desembocou nos famosos festivais Vivendo a Vida de Lee, na verdade, amostra dos grupos, o sucesso era tanto que faltava lugar, o primeiro no Teatro Presidente com capacidade para 1500 pessoas haviam 3000. Mais o Festival Musipuc que alavancou a carreira de muitos destes jovens músicos, então a linha cronológica bem simples é mais o menos assim, Rodas de Som no teatro de Arena, Musipuc, Rádio Continental, Vivendo a Vida de Lee, Paralelo 30.
Entre tantas homenagens, uma das maiores foi lançada em 2001 pela Unissinos, Paralelo 30 ontem e hoje, lindo espetáculo que reuniu em palco e disco este artistas, Carlinnhos Hartlieb foi substituído por Gelson Oliveira, e para interpretar as canções de Nando D’ávila foi escolhido Zé Caradípia, o projeto cultural teve a participação da orquestra Unissinos, e foi concebido pelo maestro José Pedro Boéssio que também era criador da Orquestra, José Pedro Boéssio, faleceu em acidente de transito no dia 28 de janeiro de 2001.
O projeto cultural além de shows tinha dois CDs, o primeiro CD a Orquestra revisa as obras do LP original de 1978 e também músicas mais novas dos mesmos autores. As interpretações mesmo sendo novas foram mantidas suas originalidades, as exceções foram Gelson Oliveira interpretando as músicas de Carlinhos Hartlieb e Zé Caradía no lugar de Nando D’ávila. Já o segundo CD é a versão integral e original da primeira coletânea.
Não é preciso nem relatar o tamanho do sucesso do projeto, apenas vamos mencionar os prêmios ganhos no “ Prêmio Açorianos de Música ” a saber:
Intérprete de MPB Gelson Oliveira com as músicas Manhã e Maria da Paz de Carlinhos Hartlieb.
Melhor música ou canção, Maria da Paz.
Técnico de Som, Renato Alscher, responsável pela mixagem e masterização do disco 1.
Arranjador, Vagner Cunha, pelo disco 1.
Menção especial, Usissinos, pelo investimento na área de música.
Disco de MPB, CD Paralelo 30, ontem e hoje.
Para finalizar, quando Juarez Fonseca escreveu na contra capa do disco, que o disco não pretende representar nada, foi seu único erro, representou e representa muito para a música de Porto Alegre.

Carlinhos Hartlieb



Carlinhos Hartlieb


Também freqüentador da esquina Carlinhos foi sem dúvida o responsável pela grande transformação, ou melhor, o inicio da Música Urbana do Rio Grande do Sul, também conhecida como MPG, passou pelas mãos de Carlinhos Hartlib. Este músico, provavelmente, tenha sido o responsável por vários talentos e sucessos que surgiram no cenário musical gaúcho e, sobretudo, de Porto Alegre.
Conhecido como aglutinador, nasceu em 28 de março de 1947, em Porto Alegre. Carlinhos Hartlieb iniciou na música em 1963, quando tocava contra-baixo acústico, inspirado pela bossa nova, nessa época tinha por volta de 16 anos. Também tocou piano, porém foi o violão e o rock que mudaram sua vida. Em 1969 os festivais de canções estouravam por todos os lados, num deles o II festival de MPB da Arquitetura, Carlinhos defende como compositor e interprete a música ”por favor sucesso” junto com o lendário grupo do IAPI Liverpool, a canção foi a vencedora e como prêmio teve o privilégio de participar do consagrado Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, promovido pela Rede Globo. Este festival ficou marcado pela grande vaia de “É proibido Proibir” de Caetano Veloso.
Carlinhos sempre concentrou sua atenção e preocupação mais para a música dos outros, do que para a sua. Foi, porém, sem dúvidas, um dos maiores compositores que esta cidade já teve.
Em 1975 cria as Rodas de Som, todas as sextas-feiras, à meia-noite no Teatro de Arena, no viaduto da Borges, era o início da organização musical de Porto Alegre, foi sucesso absoluto, mesmo no horário nada convencional, e ainda, a quebra de tabu dos músicos locais dessa época de serem considerados amadores. Estas rodas de som presenciaram muitas estréias, entre elas, a de Nelson Coelho de Castro e Bebeto Alves. Carlinhos tocou com o Som Quatro, juntamente com Hermes Aquino.
Em !968, foi para São Paulo, entrou para o Curso de Comunicação da USP e em seguida dedicou seu trabalho ao famoso TUCA – Teatro Universitário Católico. Já, em 1971, ainda, em São Paulo, no Teatro de Oficina, compôs a trilha sonora da peça As Três Irmas, de Tchecov.
Em 1981 assumiu a coordenação da Discoteca Pública Natho Henn, na qual depositou a sua garra, popularizando a discoteca.
Carlinhos fez parte do primeiro LP de música popular gaúcha, o antológico Paralelo 30, com duas canções. Trabalhou, ainda, com folclore, criando espetáculos como boitatá, a Serpente de Luz, etc.
Em 1983 se dedicou à criação de um disco somente seu, deixou-o pronto. Em 1984, porém, foi encontrado morto na Praia do Rosa, em sua casa. O disco acabou sendo lançado, apenas, cinco anos após sua morte e foi batizado de Risco do Céu.
Na contra-capa do LP Juarez Fonseca escreve, “ Exatamente cinco anos se passaram entre o final das gravações deste disco, em novembro de 1983, e o seu lançamento agora, maio de 88. Mais que um sonho de Carlinhos Hartlieb, Risco do Céu representa o encerramento de um importante ciclo da música gaúcha. Carlinhos foi precursor e líder da geração que hoje projeta para o Brasil a música feita no Rio Grande do Sul a partir de meados dos anos 70. Ele soube estabelecer parâmetros de união entre a música brasileira e a música regional gaúcha. Seu trabalho, de forte essência lírica, resume uma equilibrada mistura de bossa-nova, rock e folclore sulista. O lançamento de Risco no Céu fecha um ciclo, porque faltava este pedaço, este detalhe, para que a música gaúcha se liberasse do passado. Risco no Céu tornou-se um símbolo, embora isso nada tenha a ver com o disco em si: ele está sendo ouvido hoje como uma emoção diferente, mas sem defasagem porque é superatual. É através dele Carlinhos Hartlieb sublinha sua passagem, bruscamente interrompida na rústica casa em que construi na Praia do Rosa, S.C; onde seu corpo foi encontrado no dia 03 de fevereiro de 1984. As circunstâncias da morte permanecem mal explicadas. Carlinhos tinha 37 anos quando tornou-se esse risco no céu, visível a olho nú.” Juarez Fonseca.

Todas as música são de Carlinhos Hartlieb, exceto “Nós que ficamos sós” de Carlinhos Hartlieb e Bebeco Garcia e “Linda” de Carlinhos Hartlieb e Hermes Aquino.
O disco foi produzido por Carlinhos Hartlieb, gravado em Porto Alegre entre março e novembro de 1985.
Em 2001 recebeu como homenagem póstuma o Prêmio Açorianos em Destaque Especial pelo conjunto da obra.
Com certeza, Carlinhos Hartlieb fez sua parte para consolidar a Música Popular Gaúcha.