domingo, 13 de fevereiro de 2011



Lupicínio Rodrigues
 
Lupe, como era carinhosamente chamado, gaúcho de família humilde nasceu em Porto Alegre, em 19 de setembro em 1914, na Ilhota uma vila pobre do bairro Cidade Baixa. Lupicínio trabalhou desde cedo como mecânico de automóveis, mas sempre gostou de músicas de carnaval e da vida boêmia de Porto Alegre.

A música, entretanto, falou mais alto. Suas músicas remetiam geralmente aos temas “dor de cotovelo”, “amores fracassados” e “traídos”. Em 1932, quando já atuava como cantor, foi ouvido e muito elogiado por Noel Rosa. Quatro anos depois, veio a primeira gravação, pela RCA Victor, um compacto simples, com “Triste História” e “Pergunte a Meus Tamancos”, ambas em parceria com Alcides Gonçalves, que seria também, co-autor de outros sambas canções como “Castigo”, “Maria Rosa” e “Cadeira Vazia”.

Torcedor do Grêmio, comporia o hino do clube em 1952, quando com uma turma de amigos se dirigia de bonde para o estádio e faltou luz. De imediato, desceram do bonde e foram caminhando, daí a inspiração para a letra do hino “até a pé nos iremos”. Hoje sua foto está na galeria dos Gremistas Imortais, no salão nobre do clube.

O sucesso “Se acaso você chegasse” foi gravado pela primeira vez por Cyro Monteiro em 1938. A música ficou tão popular que Lupicínio foi para o Rio, onde conheceu Francisco Alves, que gravaria muitas de suas canções, como “Nervos de Aço” (1947) e a magistral “Esses Moços” (1948).

Num caso raro na Música Popular Brasileira, “Se Acaso Você Chegasse” foi regravada com estrondoso sucesso em 1959 por Elza Soares e lançou a cantora para o mercado.

“Vingança”, gravada por Linda Batista em 1951, foi grande sucesso. As regravações de Lupicínio foram numerosas, entre elas, Paulinho da Viola (Nervos de Aços), Caetano Veloso (Felicidade), Elis Regina (Cadeira Vazia), Zizi Possi (Nunca), Leny Andrade (Esses Moços), Gal Costa (Volta), são alguns exemplos.

Mas sem dúvida nenhuma, o mais importante intérprete foi Jamelão, que gravou dois discos inteiramente dedicados a sua obra em 1972 e 1987.

Lupicínio participou do V Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1969 com a música “Primavera”, defendida por Isaura Garcia.

A imagem de boêmio teve o contraponto do proprietário que foi de diversos bares, churrascarias e restaurantes com música, - que seguidamente ia abrindo e fechando -, como o Jardim da Saudade, o Clube dos Cozinheiros e o mais célebres de todos, o Batelão, que elevou o ponto turístico da cidade. Tudo para ter, antes do lucro, um lugar para encontro com os amigos.

Gabava-se de ser mais cozinheiro que compositor especializado no trivial caprichado, exemplo seguido pelo filho que hoje mantém o espaço temático em homenagem ao pai, Se Acaso Você Chagasse, na av. Venâncio Aires, em Porto Alegre.

Alma boa e caridosa manteve, em propriedade sua, um abrigo para desprotegidos da sorte, sem fazer nenhum alarde.

Sua rotina dividia-se entre a boemia e o lar, onde primava em ser um perfeito chefe de família. No seu casamento com D. Cerenita, reinava o amor, e seu samba “Exemplo”, é de profundo afeto: “Quando chego cansado/teus braços estão me esperando...” .

Deixou mais de 150 canções editadas, outras foram perdidas, esquecidas ou estão à espera de quem as resgate.

Temperamento calmo, pessoa modesta, meio desligado, passo lento, voz macia, Lupicínio parece não ver o tempo passar, ele sim, vai passando pelo tempo, indiferente, olhando a vida à sua moda.... Mas o tempo é implacável, cedo o veio buscar, ficando, porém a sua obra como legado para os que sentem que vale a pena amar demais, mesmo com todas as dores de cotovelo que vierem.

Enquanto houver paixão, Lupicínio viverá e será amado. Morreu em Porto Alegre, em 27 de agosto de 1974.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011


                                                        Carlos Nobre


O humorista mais popular do Rio Grande do Sul nasceu em Guaíba, em 07 de abril de 1929, AC, conforme ele definia Guaíba Antes do Cheiro, - “ de Guaíba me mandei para Porto Alegre, onde vivo por ser a cidade mais próxima. O que me facilitará enormemente quando me mandarem embora de volta às origens, ou para mais longe”. Sempre alegre, fez piadas por mais de 30 anos, seu ideal era apenas com o humor, - “meu compromisso é popular. Coisa que mais abomino é o humor metido a intelectual”.
Seu início no rádio, porém, não foi humorístico, mas sim, cantando serestas nos anos 50, no apogeu do rádio. Teve muito prestigio como cantor, sendo considerado um dos melhores cantores de Porto Alegre.
Boêmio, circulava pelos bares da capital, fazendo graça e conquistando amigos, surgindo daí sua inclinação para o humor. Hoje no Restaurante Copacabana existe uma sala em sua homenagem.
Como humorista no rádio, seu inicio foi em 1954 na rádio Gaúcha, através do programa Jogo Bruto. Após alguns anos, o programa teve seu nome trocado para Campeonato em Três Tempos, o que se tornaria posteriormente, o programa humorístico mais popular da história do rádio gaúcho. O tema do programa era o cenário esportivo do Rio Grande do Sul. Para tal, criou figuras antológicas, como “Miss Copa”, “Colorado” e “Greminho”, sendo este último interpretado por ele. Na verdade, o programa se caracterizava por ser de rádio teatro, pois além de entrar no ar pela emissora, era apresentado ao vivo no teatro sempre lotado. Para se ter uma idéia da repercussão da época, o programa chegou a atingir 96% de audiência, índice este, jamais alcançado, por qualquer rádio do Brasil.
Com os ingredientes de humor e futebol, o fenômeno foi crescendo cada vez mais. Carlos Nobre, chegou a escrever e interpretar nove programas por semana. Com todo o sucesso, como não poderia ser diferente, passou a escrever em jornais, fazendo a coluna Muro das Lamentações no jornal “A Hora”, com ilustrações de Sampaulo. Em 1962, passou a escrever em a Última Hora e, em 1964, na Zero Hora. Em 1968, chegava ao fim o programa de rádio mais reconhecido no Rio Grande do Sul cuja fama o levara ao centro do país. Relutou muito antes de ir e, por lá, permaneceu por apenas quatro meses. Trabalhou na TV Excelsior de São Paulo onde apresentou o ”Humor 62” - dirigido por Procópio Ferreira - e “Times Square” na TV Excelsior do Rio de Janeiro. A saudade de Porto Alegre, de seus amigos e do Copacabana era tão grande que não resistiu por mais de quatro meses. Para amenizar a falta da capital gaúcha neste período, chegou a vir de avião para Porto Alegre, comprar churrasco e voltar para saborear em São Paulo.
Gostava de contar que tanto Chico Anísio com Juca Chaves, seus amigos, não entendiam como insistia em ficar em Porto Alegre, podendo ser sucesso nacional. Retornou para trabalhar na empresa Caldas Júnior, no jornal Folha da Tarde, e, em 1975, para a Rádio Gaúcha e Jornal Zero Hora.
O hábito do gaúcho de ler jornal de trás para frente, deve-se a ele, ou melhor, a sua coluna que era escrita na última página.
Publicou dois livros, e em 1982, teve seu amor a Porto Alegre, retribuído com o título de Cidadão Emérito da cidade, homenagem da Câmara Municipal.
Em sua última coluna publicada no jornal Zero Hora do dia 17 de dezembro de 1985, sempre mantendo sua característica de piadas curtas e incisivas, deixou coisas tais como “ O bom do fim de semana fora é que a gente volta para a casa – para descansar” ou uma que continua muito atual em nossos dias, “ Ontem os mendigos estendiam a mão. Hoje estendem um revólver”.
Também deixou pronto seu próprio epitáfio, após sofrer um infarte, “ Eis aqui uma gargalhada cercada de choro por todos os lados”

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010



Ao Belchior


Ao Belchior, significa oriques em Portugal, a mesma coisa que briqueiro, hoje espalhados, e dando um charme especial, pela cidade, cidade esta que Joaquim da Cunha, apaixonou-se, e aqui viveu sua vida.

Joaquim da Cunha nasceu em Portugal, na localidade de Marmeleira do Botão, veio para o Brasil para morar em São Paulo, onde trabalhou por dezeseis anos, sempre ligado ao comercio. Em 1927, resolveu conhecer Montevidéu, saiu de São Paulo num Ford Bigode, no retorno parou para descansar em Porto Alegre, nunca mais saiu, foi um verdadeiro caso de amor.

Instalou-se na famosa Pensão da Dona Maria, na Rua da Praia, com as economias passou a empenhar objetos, criando desta maneira seu primeiro negócio aqui. O Primeiro objeto empenhado foi uma sombrinha de seda, como a maioria dos donos não iam buscar os objetos empenhados, foi acumulando de tudo em seu quarto.

Daí para abrir uma loja foi tudo muito rápido, seu primeiro endereço e o mais tradicional foi na Rua da Praia, nas redondezas dos cinemas Cacique e Scala.

Vendia de tudo, e era um dos pontos mais tradicionais e conhecidos de Porto Alegre, foi pioneiro neste ramo que deu origem a tantos expositores do brique da Redenção, muitos começaram adquirindo as mercadorias no Ao Belchior. Ajudou na criação do Brique da Redenção, só não quis participar, por ser domingo seu único dia de descanso.

Foi inovador também em outro negócio, junto ao brique funcionava uma lavanderia com mais de 80 funcionários, alguns meninos faziam a coleta a domicilio das roupas, mas seu ineditismo foi o atendimento de urgência, lavagem e secagem em duas horas, o cliente entrava numa pequena cabine, tirava as roupas e ficava ali lendo revistas.

Mas o sucesso mesmo foi o brique, famoso numa Porto Alegre distante e romântica, foi atrás do balcão que espalhou simpatia e histórias, ligados a todo o tipo de produtos e raridades.

Sua loja serviu, também para receber muitas personalidades e gente famosa, principalmente do Teatro que iam em busca de roupas para suas peças, entre elas podemos citar Orlando Silva e Carmen Miranda, outro freqüentar habitual era Charles Newman, irmão de Paul Newman, Charles morou quase dois anos em Porto Alegre.

Ao Belchior foi criado em 1933 para fazer parte da história de Porto Alegre e, sobretudo para dar origem, ao que Porto Alegre tem de mais famoso nos dias de hoje o Brique da Redenção.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Nei Lisboa


Nei Lisboa - O Poeta do Gueto

Previamente conhecido como poeta do gueto, sendo tal reduto o famoso bairro Bom Fim, em Porto Alegre, não existe artista mais identificado com este lugar, como Nei Lisboa.

Idolatrado no Rio Grande do Sul, conhecido no Brasil, mantém um público extremamente fiel na capital gaúcha.

Nascido em Caxias do Sul, veio para Porto Alegre, em 1965 sua identificação com a cidade foi rápida. Recebeu forte influência de um personagem muito importante, seu irmão, Luis Erico - ou Ico- cujo idealismo político foi bastante forte devido à ditadura militar acabou por atuar em organizações de esquerdas, até se tornar clandestino, e posteriormente assassinado pelos órgãos da repressão militar. Foi seu irmão que o alfabetizou e deu toda uma teoria, de esquerda logicamente.

Já aos 16 anos, Nei vai para os Estados Unidos, naqueles programas de intercâmbio estudantil, e passa nesse momento a se dedicar ao violão, compondo sua primeira música, retornado ao Brasil com um inglês perfeito. Após, começa a mostrar suas qualidades na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em rodas de som entre amigos. Também, tornou-se freqüentador assíduo da esquina maldita, já que morava no Bom Fim e a faculdade era em frente.

Estreou nos palcos, no Clube de Cultura, em um show chamado Lado a Lado com Augustinho Lincks e Gelson Oliveira, um time forte. Mas sem dúvida nenhuma o grande show dessa época foi Deu prá ti, nos anos 70, o que originou a gíria porto alegrense Deu Prá ti, bem como o clássico do cinema gaúcho de mesmo nome, rodado em super 8. E quem não se lembra da canção de Kleiton e Kledir, “deu prá ti, baixo astral, vou prá Porto Alegre, tchau”?

O show que ficou apenas um final de semana no Renascença é emblemático na carreira de Nei. Foi anunciado durante muito tempo por pichações nos muros da cidade, “deu prá ti, anos 70”. A idéia era mesmo de - basta, final, terminou, acabou, - aqueles de repressão. A partir do espetáculo, seu público começa a crescer e a ultrapassar a barreira do circuito universitário, que era até então o que alcançava.

Em 1980, sua música Prá Viajar no Cosmo Não Precisa Gasolina, alcança o segundo lugar no festival de música da PUC, o badalado Musipuc, e suas músicas começam a tocar na rádio Bandeirante de Porto Alegre, futura Ipanema.

Em 1982 se apresenta no Cio da Terra, em Caxias do Sul, festival de música onde foram reunidas cerca de 20.000 pessoas e mantém contato com músicos de outras partes do país.

No ano de 1983, seu primeiro disco, o LP, Prá Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina foi independente. No ano seguinte através da gravadora Acit lança seu segundo disco Noves Fora e, mais tarde, em 1992, a mesma gravadora lança o CD Eu Visito Estrela, que faz uma compilação dos dois discos lançados.

Chega o ano de 1986, Nei assina contrato com a poderosa EMI-Odeon, no ano seguinte lança Carecas da Jamaica e recebe o prêmio Sharp de revelação. Lança, ainda, Hein em 1988. Esses dois últimos discos foram relançados em CD em 1999.

Em 1993, grava ao vivo no Teatro São Pedro, o disco Amém, primeiro trabalho que foi lançado em LP e CD, pela Som Livre.

Somente em 1998 volta às gravações, após dar um tempo para se dedicar prioritariamente a incursões pela informática, outra paixão além, da música e literatura. Nesse ano, Hi-Fi alcança sucesso, com clássicos que permearam sua juventude, todos em Inglês que foram gravados ao vivo no Teatro São Pedro. Em 2001, lança Cena Beatnik, gravado em estúdio depois de longo tempo, pelo selo Antídoto da Acit.

No ano seguinte ocorre uma grande homenagem: é lançado o CD baladas do Bom Fim pela Orbeat, onde quatorze bandas gravam músicas de Nei Lisboa. Ainda pela Antídoto, em 2003, ocorre o lançamento de Relógios do Sol, e em 2006 de forma independente lança outro álbum: Translúcido, com músicas compostas no computador.

Além disso, Nei também é escritor além de vários artigos publicados tem dois livros lançados: “Um morto Pula a Janela” - pela Artes e Ofícios de 1991 - com relançamento em 2000 pela Editora Sulina. Esse livro foi traduzido para o francês também em 2000, e, sobre o livro Luis Fernando Veríssimo escreveu “A surpresa não é que Nei fez um livro diferente e inventivo como a sua música, e brincou com a linguagem e nos intrigou e nos fez dar risadas. A surpresa é que saiu e voltou no seu romance com a segurança de um velho marinheiro. Também foi denso e engenhoso, como um veterano com sal na barba. Este primeiro livro é tudo que se esperava do Nei Lisboa e o que ninguém podia esperar.” O outro livro, “É Foch!”, - Pela LPM - é uma seleção de textos publicados ao longo de oito anos na imprensa gaúcha, lançado em 2007.

Nei também teve várias músicas suas que serviram de temas em filmes. Caetano Veloso, ouviu, gostou e gravou “Pra te lembrar” que foi trilha em “Meu tio matou m cara” de Jorge Furtado.

No ano de 2006, a cantora carioca Simone Capeto lançou o álbum “Bom Futuro”, interpretando apenas canções de Nei Lisboa.

Sem dúvida, é uma grande história! Isso que Nei praticamente se recusou a ser sucesso nacional quando em 1986, com contrato assinado pela Emi-Odeon, esta queria transformar Nei em sucesso nacional. A idéia era que gravasse uma versão de Hey Jude dos Beatles, para a novela Top Model, sucesso garantido. Infelizmente, Nei não passava um bom momento inclusive com sérios problemas pessoais. A versão prometida seria feita por ninguém menos que Ronaldo Bastos, parceiro de Milton Nascimento. acontece que chegando para as gravações a versão apresentada era de Rossini Pinto, ele não agüentou, e em resumo, Kiko Zambianchi, aceitou e foi sucesso nacional. Ainda nessa época, após uma crítica contra seu trabalho, o jornalista da Folha de São Paulo, André Forastieri recebeu de presente de Nei um pacote de bonzo, comida para cachorros.

Abaixo a letra de Berlim Bom Fim de Nei Lisboa e Hique Gomes, do disco Carecas da Jamaica de 1987, onde critica a invasão da força militar no Bar Ocidente.

Já vejo casas ocupadas
As portas desenhadas
No vergonhoso Muro da Mauá
Os velhos nos cafés
O bar João em plena Keithstrasse
A saga violenta deste parque
O cinza da cidade
Partido Verde ao meio
Cheiros peculiares ao recheio
De um bolo de concreto
Repleto de chucrute e rock’em’roll
E depois da meia noite
A fauna ensandecida do Ocidente
Digitando em frente ao Metropol
Berlim, Bom Fim, Berlim Bom Fim.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Paulo José - Discurso, cidadão de Porto Alegre



O Ator gaúcho Paulo José, nascido em Lavras do Sul, recebeu em agosto de 1999, o título de cidadão de Porto Alegre, o título foi conferido por proposição da ex-vereadora Clenia Maranhão, seu discurso faz parte dos anais da Câmara Municipal de Porto Alegre, e também foi reproduzido na integra no jornal Zero Hora de 22 de agosto de 1999.
Para quem gosta de Porto Alegre, vale a pena ler esse maravilhoso discurso.

EU SEMPRE LEMBRAREI

“ Eu me lembro do meu primeiro encontro com Porto Alegre. A família vinha de Bagé, de carro, era noite. Eu cochilava no banco traseiro. Acordei quando entrávamos na Avenida Borges de Medeiros, ao lado da Avenida Praia de Belas, e aí eu vi imponente, monumental, maior do que a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e a de São Sebastião juntas, mais alto do que a ponte seca, mais bonito do que a casa do meu avô, o Viaduto Otávio Rocha. Depois, pela vida afora, vi outros espaços monumentais impressionantes: a Piazza San Marco, em Veneza, o arco do Triunfo, o Coliseu de Roma, o Parlament House com o Big Ban, mas nenhum deles me fez o coração disparar como aquela visão dos meus oito anos. O Viaduto Otávio Rocha foi meu primeiro alumbramento. Eu me lembro que o pão dos pobres ficava nas margens do Guaíba, lá onde a cidade acabava. Eu me lembro que a Lancheria das lojas Americanas era o ponto chique da cidade. Eu me lembro que tinha até banana split. Eu me lembro que eu sabia de cor todas as transversais da Avenida Independência, do colégio do Rosário á Praça Júlio de Castilhos: Rua Barros Cassal, Rua Thomaz Flores, Rua Garibaldi, Rua Santo Antonio, Rua João Teles. Eu me lembro da Pantaleão Teles, da Cabo Rocha, American Boite, Maipu, Gruta Azul. Eu me lembro do conjunto Norberto Baldauf, da Orquestra Espetáculo Cassino de Sevilha, do Conjunto Farroupilha, dos Quitandinhas Serenaders: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora...”.


Lembro da tristeza da minha mãe quando emprestei o violão do meu irmão para um Baiano que estava passando uns tempos aqui em Porto Alegre. Eu me lembro que o meu violão nunca mais voltou e que o Baiano se chamava João Gilberto.

Lembro do Hino Rosariense. Lembro que Maria Della Costa era garota da capa da revista O Globo, e tinha as pernas mais lindas do mundo. Lembro dos festivais Tom & Jerry nas manhãs de domingo no Cinema Avenida, das matinês do Cinema Victoria, do cinemas Rex, Roxi, Imperial, Cacique. Lembro do mezanino do Cinema Cacique, que servia a última novidade em gelados, o Peach Melba. Lembro que todo mundo detestava os filmes do Cecil B. de Mille, exceto o público. Lembro que no abrigo dos bondes da Praça VX podia-se beber o caldo da salada de frutas, sem frutas, apenas seus vestígios. Aquela água era néctar dos deuses. Lembro do Vicente Rao, do Bataclan, do brique ao Belchior, do Senhor Joaquim da Cunha, do Farolito e da China Gorda. Lembro que pela margem direita eram o Javaí, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu, e pela esquerda o Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari. Eu me lembro que meus professores diziam que ensinamentos como esses seriam de grande utilidade para a vida. Lembro do irmão Ary, professor de biologia, recusando-se a falar da teoria de Darwin: “Quem quiser que descenda do macaco, eu descendo de Adão e Eva”. Lembro que ele nos preparava para o vestibular de medicina. Eu lembro do Pervitin que a gente tomava para passar a noite estudando e tirava nota ruim no dia seguinte. Lembro do rodouro metálico e seu jato gelado que fazia tudo girar. Lembro do Gin Fizz, do Hi-Fi, do Alexander, da mistura de Coca-Cola com cachaça que levava o nome apropriadíssimo de Samba em Berlim. Lembro do footing da Rua da Praia, onde a gente exibia a camisa volta -ao- mundo, de nylon, e que diziam que iria revolucionar o vestuário masculino. Lembro das calças de brim-coringa farwest. Lembro que a deusa da minha rua era a Maria Thereza Goulart, que não era ainda Goulart. Ela morava no edifício Glória e recebia visitas misteriosas de um João, este sim, Goulart, que era invejado por toda a garotada da Barros Cassal. Eu me lembro do tempo em que futebol se jogava com goleiro, com dois beques, três na linha média e cinco no ataque e que, em geral, faziam-se gols. Eu me lembro do time do Inter, imbatível, nos anos 50: La Paz, Florindo e Oreco, Paulinho, Salvador e Odorico, Luizinho, Bodinho, Larry, Jerônimo e Canhotinho. Eu me lembro de um tempo sem malícia, quando o estádio dos Eucaliptos torcia, gritando em coro: Co- Co- Colorado, Co- Co- Colorado, Co- Co- Colorado. Eu me lembro do Café Andradas, onde a gente ia matar aula e encontrava o Henrique Fuhro. O Abujamra, que anunciava tragicamente: “O homem é uma paixão inútil! Mais um café, Macedo”. Eu me lembro do Bar Matheus, na Praça da Alfândega, da Pavesa do Treviso, da cadeira pendurada na parede, onde sentou Chico Viola. Da Sopa do mocotó levanta - defunto do Mercado Público, do sanduíche aberto do Bar Líder, daquela mostarda amarela do Galeto da Marreta e, por fim, do cachorro quente da praça do Colégio N. Sra. Do Rosário, sem favor nenhum, o melhor do mundo.

“O sabonete Cinta Azul

Tem o prazer de apresentar

Um novo filme de caubói

Bat Masterson, Bat Masterson”

“Phimatosan,

Quando você tossir,

Phimatosan,

Se a tosse repetir”

“Ela é linda, aah!

É noiva, Ooh!

Usa ponds, Aah!”

Eu me lembro do desodorante para privadas Desodor, “libera o ambiente dos odores estranhos”, do Detefon, do espiral Boa-Noite, da cera parque tina, da creolina Cruswaldina, do formicida Tatu. Eu me lembro que o Jeca Tatu tinha verminose, era pálido, maltrapilho, preguiçoso e roubado pelo patrão. E era um herói nacional... Eu me lembro das missas rezadas em latim, dos padres de batina e do seu indisfarçável sotaque da Colônia: “caríssimos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Naquele tempo, vindo Jesus com os seus discípulos”...

Eu me lembro da Glostora, da Antisardina, “o segredo da beleza feminina”, Odorono, Cashmere Bouquet, “o aristocrata dos produtos femininos”, Lusaform Primo, poderoso desinfetante contra frieiras, pé-de-atleta, CC - cheiro de corpo, mau hálito e pós barba. Eu me lembro de um perfume da fábrica Colibri, Água de cheiro Amor Gaúcho.

Eu me lembro de Ildo Meneghetti, o candidato invencível, e me lembro de sua quase absurda honestidade, quando declarou: “ Meu maior erro foi ter derrotado Alberto Pasqualini, ele tinha um plano de governo e eu, não”.

Eu me lembro do 24 de agosto de 1954. A morte de Getúlio se alastrando pela cidade, incendiando a Rádio Farroupilha, empastelando o Diário de Noticia, destruindo a sede da UDN, depredando tudo que tivesse nome americano: O consulado, as Lojas Americanas, até a American Boite... Eu me lembro do P.F Gastal, criador do Clube de Cinema e que me apresentou a alguns gênio da tela. Um deles, contava Gastal, se apresentou para uma platéia de apenas quatro pessoas, em Berlim, dizendo: “Sou ator de teatro, cinema, escrevo contos, programas de rádios, TV, dirijo filmes, peças, sou ventríloquo, ilusionista, mágico. Pena eu ser tantos e vocês, tão poucos. Meu nome é Orson Welles”. Eu me lembro do Teatro de Equipe, na General Vitorino, do Teatro de Belas Artes, na Senhor dos Passos, e da Confeitaria Atlântica, na Praça Dom Feliciano, ponto de encontro e desencontros dos artistas, do Theatro São Pedro.

Eu me lembro que nós, Luiz de Matos, Ivete Brandalise, Peréio, Ilda Maria, Mario de Almeida e tantos outros, trabalhávamos como diretores, cenógrafos, figurinistas, maquiadores , contra-regras. Eu me lembro que as vezes, eu tinha sensação de que éramos tantos e vocês, tão poucos... Mas, eu me lembro que “qualquer prazer me diverte e qualquer morena me interte”!

Eu me lembro que a Livraria do Globo era uma loja que vendia livros... Eu me lembro do Loxas, do Janjão, do Sunda... Mas, sobretudo, eu me lembro do Mário, aquele... Eu me lembro que: “Não adianta bater, que eu não deixo você entrar”.

Eu me lembro da Emulsão de Scott, do Calcigenol Irradiado, do Peitoral de Angico Pelotense, da Pomada minâncora, das pílulas da Vida do Dr. Ross “fazem bem ao fígado de todos nós”, do regulador Xavier, “vive melhor a mulher”, do pó Pelotense, do vinho reconstituinte Silva Araújo, “V de Vida, R de resistente, S de saúde e A de alegria”. Do rum Creosotado e dos reclames dos bondes da Carris: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado, e, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite e salvou-o o Rum Creosotado”.

Eu me lembro, sempre, de não confundir Capitão- de- fragata com cafetão -de -gravata. Eu me lembro que até os craques da locução confundiam “alhos com bugalhos”. Ernani Behs, a máxima voz da rádio Farroupilha uma noite anunciou, solenemente: “Transmitindo do alto do Viadeiro Borges de Meduto...”. Eu me lembro que “Belarmino tinha uma flauta, a flauta do Belarmino, sua mãe sempre dizia toca flauta Belarmino”.

“Coelhinho, se eu fosse como tu, tirava a mão da boca e botava a mão... Coelhinho, se eu fosse como tu, tirava a mão da boca e botava a mão...”

Eu me lembro que: “Até a pé nos iremos, para o que der e vier...” Eu me lembro de que não foi exatamente a pé, mas atravessando o mundo, de avião, que o Grêmio conquistou o campeonato Mundial de Clubes. E até os colorados se renderam ao show de bola do Renato, Mário Sérgio e demais heróis tricolores. “Até o Japão nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos.”

Eu me lembro que: “O pensamento parece uma coisa á toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...”

Eu me lembro do programa Maurício Sobrinho, do Clube do Guri e de uma caloura que diziam ser a nova Ângela Maria. Eu me lembro que ela morava na Cidade Baixa e se chamava Elis Regina. Eu me lembro de uns versos:

“Elis, quando ela canta me lembra um pássaro,

Mas não um pássaro cantando,

Me lembra um pássaro voando”.

Eu me lembro de uns Quintanares:

“Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo

(è nem que fosse meu corpo)

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita

Tanta nuança de paredes

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(e há uma rua encantada

que nem nos sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,

Poeira

Ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave, mistério amoroso,

Cidade do meu andar

(desde já tão longe andar!)

E talvez do meu repouso...”

Eu me lembro de que o Viaduto Otávio Rocha foi o meu primeiro alumbramento. Era guri de Lavras, chegando nesta Cidade Grande. Esta cidade que me acolheu. Nela cresci, me fiz homem, aprendi oficio. Devo isso tudo a Porto Alegre. Hoje realizo uma fantasia de adolescência: Ser Porto-Alegrense. Hoje, eu sou um cidadão da cidade que tem o viaduto Otávio Rocha, orgulhosamente.

Agradeço a homenagem que me emociona, me toca fundo no coração. Eu sempre lembrarei disso, sempre lembrarei, e me lembrarei.

Obrigado”

domingo, 31 de outubro de 2010

Vicente Rao

       

  


Um Reinado de Alegria

Primeiro Rei Momo oficial de Porto Alegre, reinou durante 22 anos, precisamente entre 1950 a 1972, jogador na década de 20, acabou sendo inscrito na história do Sport Club Internacional por ser um insuperável animador de torcida, criou a primeira escolinha de futebol, assim como a primeira torcida organizada “Camisa 12” no grande time do Internacional conhecido por rolo compressor nos anos 40/50, expressão também criada por Vicente Rao que fazia desenhos dos jogadores e do time todo e logo após os amassava, a partir deste momento que ele teve a ideia do rolo amassando todos os seus adversários, também é creditado a ele o surgimento de grandes bandeiras os estádios de futebol do Rio Grande do Sul, assim como foguetes e serpentinas. Nasceu no dia 04 de abril data de aniversário de seu clube do coração, por isso dizia que não tinha nascido e sim inaugurado.
Vicente Rao, morreu em Porto Alegre, em 1973, aos 62 aos de idade, foi considerado o maior dos foliões de todos os tempos, foi bancário como profissão e como tal, chegou a líder sindical por mais de trinta anos, chegando a ser acusado de comunista e também a incitação à violência a greve e a agitação, isso nos 70 em plena ditadura militar, foi julgado e absolvido o que evidentemente gerou uma grande festa organizada pelos amigos, um carnaval fora de época.
Em sua vida também ficou muito conhecido como papai noel e coelhinho da páscoa, estava envolvido em praticamente todas as atividades da cidade, mas sem dúvida nenhuma brilhou como Rei Momo esbanjando alegria.
Antes de 1960, não existia Rei Momo, Rainha, Princesas no carnaval, cada bloco tinha a sua própria ‘Realeza”. Em Porto Alegre na década de 30, o rei momo era um boneco que representava a figura do fanfarrão, que não trabalhava e vivia para festas. O boneco virou símbolo dos desfiles até virar gente. Anos depois surgiram os Reis Momos, Lelé e Macalé que animavam os carnavais nos bairros da cidade.
Mas o maior Rei Momo de todos os tempos na capital foi Vicente Rao, o personagem da folia, o maior mito do carnaval de Porto Alegre.
Pesava cerca de 100 quilos e era considerado o primeiro e único, era comandante do bloco “Tira o dedo do pudim” nas festas do Arrial da Baronesa e nos desfiles do carnaval na descida da Borges.

Ó meu amor
Não faz assim
Eu sou o bloco
Tira o Dedo do Pudim!

Perto do carnaval publicava na Folha da Tarde, comunicados no estilo militar sempre assinados como Vi100-Rao.
Vicente Rao foi um soberano cheio de alegria e um magnetismo pessoal que era difícil de encontrar, símbolo de uma época de Porto Alegre boêmia e tranqüila.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Gilda Marinho



Recepção no hotel Plaza São Rafael,  Gilda Marinho em pé


Nascida em Pelotas, no ano de 1900, esta porto-alegrense de coração, fez história na em nossa cidade, sobretudo na área cultural, foi jornalista, uma das primeiras mulheres a trabalhar na imprensa gaúcha, tradutora, professora de Artes da UFRGS, mas, sem dúvida alguma seu sucesso maior foi como colunista social.

Sempre transbordando em alegria, quebrou regras, como quando consegui ser admitida na confraria gastronômica Le Bom Gourmet, que até então era exclusiva para homens, Gilda foi a exceção, foi uma mulher de vanguarda, considerada muito adiantada para a época em que viveu, conforme seu amigo pessoal Roberto Gigante, “ Gilda foi a primeira em tudo, a pintar o cabelo, a dirigir carros e até a fumar”. Agitadora se dizia comunista, se vestia de modo extravagante, grandes óculos, sapatos coloridos, era uma festa só, transitava com naturalidade nos vários setores da sociedade, morava no edifício Clube do Comércio, nas décadas de 50 e 60 que era considerado sinônimo de “status”, e só “Gente Fina” morava ali, protagonista de inúmeras histórias engraçadas, elegemos uma retirada do livro Os anos Dourados na Praça da Alfandega de José Rafel Rosito Coiro, o autor relata a paixão de Gilda por jogos de cartas, naquela época, os figurões políticos e os milionários jogavam no Clube do Comércio, Gilda Marinha passava horas jogando, e devido a sua fama tinha uma prerrogativa, ela descia de seu apartamento no sétimo andar, até o primeiro e dali através de uma porta, chegava as salas de jogo, isto é, não passava na portaria, nem precisava sair a rua para jogar, fez isso por 15 anos, num determinado momento foi criado uma portaria no clube na qual ficava terminantemente proibida que fossem servidas refeições nas mesas de jogos, imaginem o que significava para os jogadores esta Lei, já que quando estavam jogando não se levantavam para nada, Mas Gilda com sua tradicional irreverência numa longa noite de jogos, solicitou um filé mal passado e aspargos na manteiga, o garçom, conforme determinação relutou em atender mas acabou vencido, temeroso por se tratar de Gilda Marinho, sem antes ter que ouvir diversos impropérios sobre o Presidente, quando o presidente do clube soube, ficou uma “fera” convocou uma reunião extra urgente e por unanimidade a resolução foi suspender Gilda Marinho por trinta dias, de imediato a ordem foi para a secretária do clube, porém não encontraram a ficha de sócia, conclusão, Gilda jamais tinha sido sócia do Clube, nova reunião de diretoria, então um dos conselheiros fez a defesa de Gilda Marinho, onde chamou a atenção para o fato dela ser uma pessoa muito particular, e que Gilda fazia parte do Clube de seu folclore, e que o Clube devia muito mais a ela, do que o ela Clube e que tinha sido ela, como profissional de imprensa que mais tinha promovido o Clube, após a Diretoria, novamente por unanimidade resolveu conceder um título de sócia, ela ao receber o referido título disse “que era sócia do clube a mais de dez anos, pois fiz usucapião do título de sócia”. Hoje no Clube existe a Sala de Jogos Gilda Marinho.

Literatura sobre Gilda Marinho pode ser encontrado em “A vaca nua” de Eduardo Krause e “Memórias Alinhavadas” de Rui Spohr.

Gilda morreu em Porto Alegre, em 1984, sem antes porém de passar batom e espalhar perfume no quarto em que estava internada.